quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

(..) “Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é? A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? A moça… ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar. Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.” - Caio Fernando Abreu

Acordei pensando em ti, na nossa história, de como ela se perdeu em vazios, de como foi e não se preocupou em voltar. Senti saudade, confesso. Procurei nos meus rascunhos, em meu diário, quase que por secreto, teu número de telefone. Encontrei. Respirei fundo, fechei bem os olhos, tomei um pouco de coragem. Fui discando os números, apertei no botão pra ligar. Garganta estava seca na hora. Chamou um bom tempo, não atendeu. Havia sentido uma dor no peito, um rancor. Talvez por me esquecer ou apenas por não querer me atender. Senti saudade do teu sorriso, da tua voz. Foi preciso me contentar com o fato de não te ter, com a ideia de não mais me pertencer. Resolvi fazer algumas coisas que estavam pendentes, ir quem sabe talvez, viver. Fui tomar meu café, que ao contrario de todos me acalma. E não, não é café puro, gosto mais do cappuccino. Telefone toca. Deixo meu jornal de lado, me levanto lentamente e vou atender. Era ele do outro lado da linha (…)
- Oi.          
- (…)
- Lembra de mim pequena?
- Como poderia esquecer?
- Não sei. Talvez não tivesse (…)
- Não tivesse o que?
- Não tivesse sido marcante em tua vida, talvez apenas uma pessoa especial.
- Eu te amei, meu caro. Quem ama não tem a capacidade de esquecer, por nada e nem ninguém.
- Bom saber minha pequena, se é que ainda posso lhe chamar assim. Mas então, como andas?
- Vou bem, obrigada. E você querido?
- Estou bem, só há um problema (…)                   
- E o que seria?
- Sinto saudades. Sinto saudades de nós, meu anjo.
Meu coração havia acelerado naquela hora, mas não podia transparecer um sentimento ainda habitado em mim. Era preciso ser fria, mesmo não querendo.
- Não parece. – Disse querendo sussurrar um “eu também”.
- Por que não pequena?
- Se foi. Me deixou. Não se importou em como eu ficaria, ou se suportaria.
- Foi preciso ir, te deixar, te perder. Não pro meu bem, mas pro teu.
- Bom saber disso, mas superei. Acabou se tornando necessário isso.
- O que tem pra hoje? – Senti tua voz trêmula, como se estivesse gaguejando um “ainda te amo” aprisionado num sentimento entalado na garganta.
- Bom, acho que estou livre. – sorri.
- Poderíamos sair, o que acha?
- Pode ser sim, no mesmo local?
- Seria o ideal. Me traz ótimas lembranças lá.
- Então te encontro. As oito?
- Sim.
E desligou o telefone assim, sem ao menos se despedir. Fiquei feliz. Esperei o dia ter fim, numa ansiedade enorme. A noite chegou, estrelas no céu e a lua estava linda. Me dirigi ao local aonde nos encontrávamos sempre. Cheguei e me deparei com ele sentado na mesa próxima a janela, onde sempre costumávamos sentar. Sorrisos se abriam instantaneamente em meu rosto, e meus olhos certamente brilhavam muito também. Ele estava o mesmo de 2 anos atrás, não havia mudado nada. Aliás, seu cabelo estava mais negro e seus olhos mais claros.
- Lhe trouxe isso. – Ele sorri, e me entrega uma margarida que roubou de alguma calçada certamente.
- Obrigada. – Disse olhando em seus olhos, e de mesmo modo sorrindo também.
- Como havia lhe dito, sinto falta de nós.
- Mas sabes tão pouco sobre mim.
- Posso não saber o nome de suas tataravós, ou do nome do cachorro que foi do teu pai a 30 anos atrás, mas sei o suficiente de ti.
- Então me conte o que sabes. Pode ser?
- Teu nome completo é Marianna Rocha Sampaio. Nasceu no dia 06 de agosto de 1991, em São Paulo. Sorri o tempo todo. Toma café quase toda hora, não café puro, e sim cappuccino. Não gosta do teu cabelo, nem do jeito que sua boca fica quando fala. Gosta de vôlei e de futebol. Torce pro Grêmio. É completamente apaixonada por desenhos da Disney. Sua cor preferida é o amarelo. Lê pra ficar bem, escreve trechos inspirados nos do seu tão amado Caio Fernando. Não gosta de música nacional. Teu filme preferido é Querido John. Sabe o nome de todos os personagens de Harry Potter. Sua banda preferida é Green Day. Sonha em se formar em medicina. Gosta de cavalos e pretende ter um Haras. Não gosta de matemática, prefere português. Sei mais coisas também, quer que eu continue falando?
- Me diz uma coisa que ninguém sabe.
Que você ainda me ama.
- E como você sabe?
- Possui 5 maneiras diferentes de olhares. Uma quando está triste, seus olhos ficam quietos e lacrimejam. Outra quando está admirada com algo, teus olhos cintilam como faíscas. Quando fica feliz, eles quase se saltam pra fora do teu rosto de tanta alegria que transborda. Outro quando olha teus amigos, eles se fecham calmamente e se abrem numa velocidade muito rápida. E a outra é quando realmente ama alguém.
- E como é?
- O modo de como olha pra mim.


Já sorriu hoje? Digo, sorriu verdadeiramente? Já se importou com as pequenas coisas que realmente lhe fazem sorrir? Pequenas coisas, que aposto que você nem deve perceber não é? E lhe digo uma verdade, minha cara. São essa coisas, inotáveis que realmente transmitem felicidade. Falo, de quando teu cachorro vem todo feliz te receber na porta da tua casa com uma lambida no rosto, mesmo estando revoltada ou cansada do trabalho. De quando realmente entende a matéria, que parecia tão difícil. De quando sente falta de alguém, e esse alguém corresponde. Quando sai com as amigas, e ri incontrolavelmente. Quando sua mãe faz sua comida favorita pro almoço. E quando alguém realmente se importa contigo. Quando toma sorvete e se suja toda. De quando encontra alguém na rua, e esse alguém sorri pra você. De quando vai brincar com seu irmão de videogame e ele sempre ganha, logo implicando com você. De quando discute futebol com seu melhor amigo, ou de quando fala mal da pessoa insuportável da escola juntamente com sua melhor amiga. De quando vai tomar leite e encontra o restante do achocolatado que é o suficiente. De quando vai toda desarrumada pra algum lugar, e alguém lhe chama de linda. Quando sai com seu pai, e ele compra aquele vestido lindo que tanto deseja. De alguém que não fala a tanto tempo lembrar do teu aniversário. De conversar com alguém que não conversa a anos. Dançar feito louca em frente ao espelho, e pisar no seu próprio pé. Ir no show do seu cantor favorito, e ele te chamar no palco. Comer algodão doce em um dia quente no parque de diversões, e depois ir na maior montanha russa.  É assistir filme de terror, e rir de você mesma levando susto. É colocar a calça jeans apertada e ver que ela serviu. Sabe, é disso que eu to falando. De coisas minusculas, pequenas, minimas e que fazem toda uma diferença pra transparecer um sorriso verdadeiro em teu rosto. É disso pequena, exatamente disso.